sábado, 10 de setembro de 2011

Capitulo 1

 
Cascas de Ovos
Arequipa (Peru), 02 de agosto Ano 2042.
 
Sirenes ressoam, as pessoas começam a evacuar a cidade. Descem dos prédios desesperadas. O jovem Peter encanta-se com o som do sino da Igreja que se mistura ao som da sirene. Ninguém sabe o que esta acontecendo, parecem aviões que sobrevoam a pequena cidade. Seriam bombas? Meteoros? Alienígenas? Ninguém sabe. Gritos e choro por todos os lados.
Desesperados, pais carregam filhos nos ombros. Vários mortos pelas ruas  misturam-se a feridos que agonizam pelas ruas. Peter percebe que se perdeu de sua mãe e irmã. O seu cabelo negro neste momento está avermelhado devido à poeira que encobre toda cidade e Abriga-se entre as colunas da Igreja de São Francisco. O menino de corpo franzino escuta absorto, o som dos sinos, convocando as pessoas para se abrigarem na Igreja. De repente, um homem alto, forte e de pele negra rapidamente abre a porta e empurra o pequeno Peter para dentro. O menino assustado encolhe-se por entre os bancos, ouvindo os gritos e estrondos. A noite está mais clara que o comum, parece dia. Por fim o barulho cessa.
De repente o mesmo homem chega arrastando uma pessoa que parece chorar. Logo após, outras adentram a Igreja, e em instantes, a Igreja está repleta de gente. Peter não reconhece ninguém naquela multidão e começa a chorar baixinho. Ele percebe haver perdido sua mãe e sua irmã.
Lembra-se apenas de sua mãe a gritar:
— Corre, pois o prédio está desabando.
E assim aconteceu. Em alguns segundos o hotel onde estava hospedado com sua família e um grupo de pessoas do centro de pesquisa dos povos Incas estava sob os escombros. Aquela construção que até o início da tarde parecia imponente; ás cinco horas começou a ruir e às seis horas já sabia que não havia nenhuma esperança. Havia perdido  a mãe e a irmã.
Caminhou pelo inicio da noite em meio às pessoas gritando até que se sentiu seguro junto às torres da Igreja. O menino nunca havia visto coisa parecida e tinha certeza: jamais esqueceria o que aconteceu.
Peter, em meio ao choro começou a rezar, lembrava que o seu protetor estava no céu, o pai de Peter havia morrido quando ele tinha apenas três anos, agora estava com onze. Chamava-se José[1]. Pelas fotos dava-se para perceber era um homem robusto, porém de mãos grandes e delicadas. Essa característica sabia por que todos diziam que ele tinha mãos que se assemelhavam às do pai, e quisera Deus que Também tivesse o coração do Pai. Peter tinha pela clara e cabelo escuro, características de sua mãe. O pai tinha traços mais escuros. Porém, sua personalidade lembrava a de seu pai, apesar da pouca convivência, a capacidade de organização, liderança e partilha lhe rendia muitas das vezes mais idade do que possuía. Pedia a seu pai em orações, que cuidasse de sua mãe e de sua irmã. Ao mesmo tempo em que tentava conter o choro. Rezava também aos santos anjos e a nossa Senhora que encontrasse sua família.
Lembrou-se que naquele dia celebrava-se Nossa Senhora dos Anjos. Na Igreja havia uma grande pintura da Virgem Rainha dos Anjos que cobria toda abóbada. Inúmeras pessoas peregrinavam pela cidade em visitas ao Santuário. Pessoas que buscavam as festas religiosas e culturais misturados a turistas aventureiros. Os dias que antecediam a festa da Cidade, na Plaza de Las Armas, Centro Histórico de Arequipa, a multidão se reuniam; a cidade se encolhia frente ao número de pessoas que ali se encontravam.
Confuso, Peter aproximou-se do homem que lhe colocou para dentro da Igreja e pergunta:
— O Senhor precisa de ajuda?
O homem o olha, e sorri, dizendo em tom bem sério.
— Onde está sua mãe, garoto?
— Não está mais aqui. Disse o menino com voz embargada.
— Sente-se e acomode-se. Verei o que posso fazer por você. Disse o Homem preocupado com as pessoas que tentava entrar na Igreja.
— Obrigado. Respondeu Peter.
— Conte-me como veio parar aqui? Interrogou frei Lourenço que ouviu toda a história do jovem, e se comoveu com o trágico final. Não havia muito que fazer.
Naquele momento, o homem se vê desarmado. Não há onde procurar, tudo está destruído do lado de fora. Os que não morreram nas explosões neste momento devem está agonizando imóveis em baixo dos escombros.
Peter, então, percebe que está sozinho e começa a chorar, e diz em meio às lágrimas:
— Senhor por que isso aconteceu? Pedi que “O Senhor cuidasse delas”. Por que não o fez? Pedi que as protegesse! Por quê? Por quê?
O Jovem sabia que não haverá respostas; do mesmo modo como nunca houve explicação para a morte de seu pai. Descobriu cedo que a morte é assim: um evento que acontece. Ao descobrir que alguém está morrendo inicia-se um processo constante de despedida que se torna um ritual.
“Espero que se recupere. Será que está melhor?”...
 Porém, para alguns, esse processo ocorre posterior ao fato. A morte vem de modo surpreendente, o que não deixa de ser menos doloroso.
 “Meus Deus, como era jovem! Tinha toda uma vida pela frente!”.
A partir daquele momento nada mais se faz ao não ser guardar as boas lembranças.  Assim foi com o seu pai, e deveria ser com a sua mãe e irmã.
Peter olha para o homem e pergunta:
— Para onde elas foram?
O homem olha para cima em silêncio, e aponta o céu Aponta o Céu.
— Sim, elas estão lá. Entretanto, me confortar saber que Ela agora está com elas e comigo e, aponta para uma pintura de Nossa Senhora dos anjos que toma toda a parte central do teto da Igreja.
O homem que fala com Peter é o reitor daquele santuário. Frei Lourenço, frente àquela atitude de fé, começa chorar, pois gostaria de ter a mesma fé daquele menino.  Desejou que todos os seus fiéis estivessem sendo cuidados pela Virgem Mãe do céu.
Muitos morreram assustados. Não tiveram tempo de saber o que acontecia naquele inicio de noite. Frei Lourenço sabia que a sua Igreja estava cheia de peregrinos, e que naquele momento tornavam-se peregrinos ao pé da letra. Sem destinos, sem um lugar para ir.
Durante toda a noite, os mais saudáveis junto com frei Lourenço ajudaram os mais necessitados. Peter percorria a nave da Igreja levando água e curativo àqueles que agonizavam. Enquanto ajudava, frei Lourenço observava as mãos grandes com dedos finos. Não eram delicadas como as de seu pai, mas fazia todas as coisas com muito cuidado e, seus gestos eram quase imperceptíveis. Ao cuidar dos enfermos, conversava com cada um olhando-os nos olhos, e estes nem percebiam que feridas imensas eram tratadas. Assim foi a noite de Peter; levar ajuda e observar aquele frade.
Pela madrugada, Peter dormiu próximo ao altar lateral, onde se encontrava uma imagem de São Francisco sobre um tapete de palha. De repente mais pessoas chegaram à igreja, algumas se alegravam por estarem vivas outras choravam compulsivamente, pois sabiam que os entes queridos não mais estavam ali; haviam morrido. Um grupo adentrou pedindo ajuda, estavam com fome. Dormiram em meio aos escombros e pareciam ser os últimos sobreviventes.  Frei Lourenço pediu que alguns preparassem mais comida para todos que ali chegaram e os que ainda viriam. Peter mostrou onde estavam os alimentos. Havia ao fundo da igreja um deposito com suprimentos que eram doados pelos peregrinos.
Logo que amanheceu, Frei Lourenço resolveu sair pela cidade como Cura. Gostaria de oferecer um sepultamento digno para as suas ovelhas. Sabia que por ali havia várias almas necessitando de sua ajuda. Peter correu a acompanhar frei Lourenço gostava de fazê-lo. Estava curioso para ver o que havia acontecido e que ninguém ainda sabia ao mesmo tempo em que mantinha aquela última esperança encontrar a sua mãe e sua irmã.
Ao sair da Igreja ficaram assustados, restava apenas dor, os que ainda agonizavam em baixos dos escombros traziam rosto dor e espanto. Um ar de “o que aconteceu? Por que comigo?”. Apresentavam a mais alta imagem da fragilidade humana. Dava para imaginar as pessoas correndo, não havia alto, nem baixo, em cima, dentro, fora; não dava para esconder. Somente a roupa do corpo, não havia a quem recorrer. Várias lembranças formavam-se nas mentes. Vidas que passaram em segundos. Frei Lourenço com o seu hábito cinza, quase negro de tanta sujeira, entrava em todos os buracos perguntando se ali havia alguém.
Ele gritava com voz forte, mas não recebia nenhuma resposta.
— Alguém ai? Estão me ouvindo?
Sem resposta seguiram até que encontrar algumas pessoas que morreram carbonizadas. Pareciam rezar. Liam o evangelho da Ovelha perdida[2], onde o pastor deixava as noventa e nove e sai atrás da única perdida. O frade tinha o coração e a alma em prantos. Não havia o que fazer ou dizer, apenas segurava com força o crucifixo preso a sua coroa mariana e recomendava aquelas pobres almas a Deus
— Estas são minhas ovelhas! Enquanto estavam aqui morrendo de frio e fome lá estava eu, dentro da Igreja cuidando das noventa e nove.
— Frei! Não adianta. Diz Peter, mas este não escutava inconformado.
De repente Peter olhou a sua volta e viu duas mulheres que morrem abraçadas, em num instante pensou serem sua mãe sua irmã talvez. Assim elas partiram para o céu, bem unidas. Pediu que Frei Lourenço rezasse por elas de modo especial. E assim foi feito. Olhou para Peter e disse:
— Meu Filho você é a minha ovelha perdida[3]. As noventa e noves foram salvas, porque primeiramente eu cuidei da minha ovelha. E se assim Deus nosso vai permitir, cuidarei da ovelha que ele me concede em sua bondade infinita.
As lágrimas desceram-lhes o rosto. Peter sabia que seu pai, que se encontrava no céu, não só havia cuidado de sua mãe, mas, havia descido de algum modo para cuidar dele. Os dois ficaram ali por um bom tempo abraçados. Depois continuaram o caminho a cuidar e a realizar os serviços com as demais ovelhas que se encontravam agora em verdes pastagens repousantes.
Ao voltar para Igreja, eis que todos se apresentam e começam a falar sobre o que aconteceu. Não só referente ao cataclismo do dia anterior, mas tudo que havia ocorrido nos últimos dias. Estavam reunidos ali um jovem casal escandinavo, de nome Tobias e Fortuna; recém casados que resolveram fazer uma viagem com intuito de descansar. O jovem esposo, médico oftálmico que esteve envolvido por um longo tempo praticamente isolado em um projeto, preparava-se para inscrever-se em um grupo de pesquisas da USP[4], e com sucesso e alegria de ter o seu projeto aprovado resolveu realizar esta viagem, ao mesmo tempo em que a viagem era uma oportunidade de resolver algumas coisas ainda pendentes. O casamento aconteceu em meio a uma serie de polêmicas que envolvia problema de interesses e conflitos de personalidades. O casal que passava por uma nova fase a cada dia recuperava a confiança o amor e o respeito onde ambos eram fortalecidos de modo mais profundo e visível.
Estavam também na Igreja três jovens estudantes universitários. Jorge, Alex e Valter.  Jorge estudava astronomia. Foi atraído até ali pelo Centro tecnológico da NASA. De lá, seguiria para Moray[5]. O outro era Alex, estudante de relações internacionais. Havia iniciado uma pesquisa sobre o MERCOSUL[6] e, finalmente. Valter estudante de artes plásticas, um pintor e escultor de mão cheia. Havia sido atraído até ali pelo acervo artístico da Cidade de Arequipa, que em sua vida cotidiana revelava em sua rica arquitetura as nobres atrações dos espanhóis, franceses e belgas. As igrejas e mosteiros espalhados pela cidade guardam grandes obras em pedras, metais e histórias de vida, a qual todo artista deseja conhecer[7].
Os três eram conhecidos desde a infância, passada em Brasília, tinham em si o desejo de conhecer, e o gosto pela aventura. Estavam sempre dispostos a colaborar com projetos sociais. Fizeram de tudo: palhaços em hospitais, contadores de histórias em orfanatos e distribuição de panfletos contra o aborto pelo grupo Pró-vida[8]. Eram leitores atentos e nostálgicos sobre “O movimento dos caras pintadas”. Leram atentamente estudos críticos feitos no Brasil e no exterior sobre o fato da eleição de um presidente operário e oito anos depois a novidade da mulher eleita presidente[9]. Eram atentos acompanhadores de mudanças fundamentais no mundo; dentre estas, a luta constate contra a corrupção em geral, os grandes sucessos alcançados com as campanhas contra analfabetismo, o terror do câncer e a infinda luta contra a poluição.
Havia também, naquele local de orações e vigílias, dois homens com sotaques engraçados. Pareciam representantes de diversos lugares do mundo. Eram mineradores especialistas em projetos de perfuração – Gaspar e Benedito. Gaspar o mais velho, possuía barba grisalha e cabelo loiro escuro; já Benedito, pele bronzeada e olhar penetrante. Seus olhos eram de uma cor diferente entre um azul e cinza, apesar do cabelo enegrecido. Os dois falavam constantemente sobre a explosão, pareciam saber mais que os demais, o que havia acontecido. Não se sabia concretamente por que estavam ali. Frei Lourenço logo se aproximou dos dois, pois deveriam saber de algo que inusitado. Intuitivamente buscaram falar com as pessoas nativas que encontravam na Igreja. Frei Lourenço logo percebeu que estes extraiam da sabedoria e cultura Inca algo que poderia explicar o que havia acontecido em suas terras.
A chave do mistério poderia estar entre os homens mais simples. Por isso, conversavam com um tropeiro. Falava sobre o comportamento de alguns animais que nos últimos dias não se aquietavam. Nas noites anteriores os animais comiam muito assustados, pareciam perceber alguma coisa uma vaca resistiu a não entrar no celeiro e dormiu ali fora.
— “pobrezinha morreu soterrada nos escombros de terra” afirmava um vaqueiro da região.
Gaspar conversou também com um pescador que disse que há tempos os peixes maiores nãos subiam o rio mantendo-se mais ao fundo. A água parecia estar mais quente. Cada um dos camponeses tinha algo a relatar. Frente à experiência e sabedoria popular aqueles homens silenciaram.
Agenor, um senhor que trabalhava em um banco da cidade, disse que eram normais as portas de vidros embaçarem por causa do ar condicionado, mas notara que há dias isso não ocorria.
— A Terra avisou e não escutamos, disse Gaspar a frei Lourenço que se aproximava questionando:
 — O que ocorreu?



[1]    Alusão a São José, pai do Menino Jesus, que mesmo discreto teve grande importância em sua vida (Mt 1,19-22.2,13).
 
[2]    Mt 18,12
 
[3]    Lc 15,6
 
[4]    A Universidade de São Paulo é a maior instituição de ensino superior e de pesquisa do País. É a terceira da América Latina.
 
[5]    Moray  foi confundido com um modo de plantio de cereais, uma espécie de canteiro em círculos da Cultura Inca. Porém, foi confirmado por especialistas da NASA que era um centro de observação astronômico. Verificou-se que por meio desses círculos eles estudavam todas as fases da lua, e os “círculos” tem o formato de um útero. http://bttgeraes.wordpress.com/2010/01/16/47peru-moray-e-maras13-08-09/
 
[6]    O Mercosul, como é conhecido o Mercado Comum do Sul é a união aduaneira (livre comércio intrazona e política comercial comum) de cinco países da América do Sul. Em sua formação original o bloco era composto por quatro países: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Desde 2006, a Venezuela depende de aprovação dos congressos nacionais para que sua entrada seja aprovada, mais especificamente do parlamento paraguaio, visto que os outros três já a ratificaram. No dia 17 de dezembro de 2007, o Israel assinou o primeiro acordo de livre comércio (ALC) com o bloco. No dia 2 de agosto de 2010, foi a vez de o Egito assinar também um ALC
[7]    http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/peru/peru-4. php
[8]    O Pró-Vida de Anápolis é uma associação beneficente, com sede em Anápolis (GO). Sua finalidade é promover a dignidade e a inviolabilidade da vida humana e da família e defender tais valores contra os atentados de particulares ou dos poderes públicos. http://www.providaanapolis.org.br/
[9]    Fernando Collor foi eleito (1990) e sofreu processo de impeachment (02/10/1992); Luis Inácio da Silva (Lula) torneiro mecânico eleito (2003) por coto popular. Primeira mulher na presidência do Brasil Dilma Rousseff  (2011). 
 

Prólogo

Prólogo
Aos Pés dos Andes
Arequipa (Peru), 02 de outubro de 2080
 
Frei Lourenço e Peter velhos amigos que há muitos anos não se vêem se encontram na Igreja em meio à penumbra da madrugada.
— Quanto tempo! Como vão às coisas em Kefas? Pergunta o frade, já ancião, ao receber a surpreendente visita de Peter um homem cheio de ideais,  que alguns anos antes não passava de uma criança cheia de sonhos.
— Infelizmente não tenho boas noticias. O equilíbrio que alcançamos ruiu em pouco tempo. Para alguns o governo se tornou um veneno. Comunica com voz cansada envolta em desânimo e mostrando algumas fotos de pessoas abandonadas pelas ruas. Fome, doenças e exploração. As imagens trazidas por Peter revelavam o porquê ele deixou a cidade.
— Nós já vivemos isso, afirma o frei, aprendiz das coisas divinas, mas, experiente em assuntos ligados à natureza humana. No intuito de confortar o jovem envelhecido pelas lutas do mundo.
Um suspiro na nave da igreja gélida. Frei Lourenço fita profundamente nos olhos e percebe que Peter o filme de suas vidas...