Arequipa (Peru), 02 de
agosto Ano 2042.
Sirenes
ressoam, as pessoas começam a evacuar a cidade. Descem dos prédios desesperadas.
O jovem Peter encanta-se com o som do sino da Igreja que se mistura ao som da
sirene. Ninguém sabe o que esta acontecendo, parecem aviões que sobrevoam a
pequena cidade. Seriam bombas? Meteoros? Alienígenas? Ninguém sabe. Gritos e
choro por todos os lados.
Desesperados,
pais carregam filhos nos ombros. Vários mortos pelas ruas misturam-se a feridos que agonizam pelas
ruas. Peter percebe que se perdeu de sua mãe e irmã. O seu cabelo negro neste
momento está avermelhado devido à poeira que encobre toda cidade e Abriga-se entre
as colunas da Igreja de São Francisco. O menino de corpo franzino escuta absorto,
o som dos sinos, convocando as pessoas para se abrigarem na Igreja. De repente,
um homem alto, forte e de pele negra rapidamente abre a porta e empurra o
pequeno Peter para dentro. O menino assustado encolhe-se por entre os bancos, ouvindo
os gritos e estrondos. A noite está mais clara que o comum, parece dia. Por fim
o barulho cessa.
De
repente o mesmo homem chega arrastando uma pessoa que parece chorar. Logo após,
outras adentram a Igreja, e em instantes, a Igreja está repleta de gente. Peter
não reconhece ninguém naquela multidão e começa a chorar baixinho. Ele percebe
haver perdido sua mãe e sua irmã.
Lembra-se
apenas de sua mãe a gritar:
—
Corre, pois o prédio está desabando.
E
assim aconteceu. Em alguns segundos o hotel onde estava hospedado com sua família
e um grupo de pessoas do centro de pesquisa dos povos Incas estava sob os
escombros. Aquela construção que até o início da tarde parecia imponente; ás
cinco horas começou a ruir e às seis horas já sabia que não havia nenhuma
esperança. Havia perdido a mãe e a irmã.
Caminhou
pelo inicio da noite em meio às pessoas gritando até que se sentiu seguro junto
às torres da Igreja. O menino nunca havia visto coisa parecida e tinha certeza:
jamais esqueceria o que aconteceu.
Peter,
em meio ao choro começou a rezar, lembrava que o seu protetor estava no céu, o
pai de Peter havia morrido quando ele tinha apenas três anos, agora estava com
onze. Chamava-se José[1].
Pelas fotos dava-se para perceber era um homem robusto, porém de mãos grandes e
delicadas. Essa característica sabia por que todos diziam que ele tinha mãos
que se assemelhavam às do pai, e quisera Deus que Também tivesse o coração do
Pai. Peter tinha pela clara e cabelo escuro, características de sua mãe. O pai
tinha traços mais escuros. Porém, sua personalidade lembrava a de seu pai,
apesar da pouca convivência, a capacidade de organização, liderança e partilha
lhe rendia muitas das vezes mais idade do que possuía. Pedia a seu pai em
orações, que cuidasse de sua mãe e de sua irmã. Ao mesmo tempo em que tentava
conter o choro. Rezava também aos santos anjos e a nossa Senhora que
encontrasse sua família.
Lembrou-se
que naquele dia celebrava-se Nossa Senhora dos Anjos. Na Igreja havia uma
grande pintura da Virgem Rainha dos Anjos que cobria toda abóbada. Inúmeras pessoas
peregrinavam pela cidade em visitas ao Santuário. Pessoas que buscavam as
festas religiosas e culturais misturados a turistas aventureiros. Os dias que
antecediam a festa da Cidade, na Plaza de Las Armas, Centro Histórico de
Arequipa, a multidão se reuniam; a cidade se encolhia frente ao número de
pessoas que ali se encontravam.
Confuso,
Peter aproximou-se do homem que lhe colocou para dentro da Igreja e pergunta:
— O
Senhor precisa de ajuda?
O
homem o olha, e sorri, dizendo em tom bem sério.
—
Onde está sua mãe, garoto?
— Não
está mais aqui. Disse o menino com voz embargada.
—
Sente-se e acomode-se. Verei o que posso fazer por você. Disse o Homem preocupado
com as pessoas que tentava entrar na Igreja.
—
Obrigado. Respondeu Peter.
—
Conte-me como veio parar aqui? Interrogou frei Lourenço que ouviu toda a
história do jovem, e se comoveu com o trágico final. Não havia muito que fazer.
Naquele
momento, o homem se vê desarmado. Não há onde procurar, tudo está destruído do
lado de fora. Os que não morreram nas explosões neste momento devem está
agonizando imóveis em baixo dos escombros.
Peter,
então, percebe que está sozinho e começa a chorar, e diz em meio às lágrimas:
— Senhor
por que isso aconteceu? Pedi que “O Senhor cuidasse delas”. Por que não o fez?
Pedi que as protegesse! Por quê? Por quê?
O
Jovem sabia que não haverá respostas; do mesmo modo como nunca houve explicação
para a morte de seu pai. Descobriu cedo que a morte é assim: um evento que
acontece. Ao descobrir que alguém está morrendo inicia-se um processo constante
de despedida que se torna um ritual.
“Espero
que se recupere. Será que está melhor?”...
Porém, para alguns, esse processo ocorre
posterior ao fato. A morte vem de modo surpreendente, o que não deixa de ser
menos doloroso.
“Meus Deus, como era jovem! Tinha toda uma
vida pela frente!”.
A
partir daquele momento nada mais se faz ao não ser guardar as boas
lembranças. Assim foi com o seu pai, e
deveria ser com a sua mãe e irmã.
Peter
olha para o homem e pergunta:
—
Para onde elas foram?
O
homem olha para cima em silêncio, e aponta o céu Aponta o Céu.
—
Sim, elas estão lá. Entretanto, me confortar saber que Ela agora está com elas
e comigo e, aponta para uma pintura de Nossa Senhora dos anjos que toma toda a
parte central do teto da Igreja.
O
homem que fala com Peter é o reitor daquele santuário. Frei Lourenço, frente àquela
atitude de fé, começa chorar, pois gostaria de ter a mesma fé daquele menino. Desejou que todos os seus fiéis estivessem
sendo cuidados pela Virgem Mãe do céu.
Muitos
morreram assustados. Não tiveram tempo de saber o que acontecia naquele inicio
de noite. Frei Lourenço sabia que a sua Igreja estava cheia de peregrinos, e
que naquele momento tornavam-se peregrinos ao pé da letra. Sem destinos, sem um
lugar para ir.
Durante
toda a noite, os mais saudáveis junto com frei Lourenço ajudaram os mais
necessitados. Peter percorria a nave da Igreja levando água e curativo àqueles
que agonizavam. Enquanto ajudava, frei Lourenço observava as mãos grandes com dedos
finos. Não eram delicadas como as de seu pai, mas fazia todas as coisas com
muito cuidado e, seus gestos eram quase imperceptíveis. Ao cuidar dos enfermos,
conversava com cada um olhando-os nos olhos, e estes nem percebiam que feridas
imensas eram tratadas. Assim foi a noite de Peter; levar ajuda e observar
aquele frade.
Pela
madrugada, Peter dormiu próximo ao altar lateral, onde se encontrava uma imagem
de São Francisco sobre um tapete de palha. De repente mais pessoas chegaram à
igreja, algumas se alegravam por estarem vivas outras choravam compulsivamente,
pois sabiam que os entes queridos não mais estavam ali; haviam morrido. Um
grupo adentrou pedindo ajuda, estavam com fome. Dormiram em meio aos escombros
e pareciam ser os últimos sobreviventes. Frei Lourenço pediu que alguns preparassem
mais comida para todos que ali chegaram e os que ainda viriam. Peter mostrou
onde estavam os alimentos. Havia ao fundo da igreja um deposito com suprimentos
que eram doados pelos peregrinos.
Logo
que amanheceu, Frei Lourenço resolveu sair pela cidade como Cura. Gostaria de
oferecer um sepultamento digno para as suas ovelhas. Sabia que por ali havia
várias almas necessitando de sua ajuda. Peter correu a acompanhar frei Lourenço
gostava de fazê-lo. Estava curioso para ver o que havia acontecido e que ninguém
ainda sabia ao mesmo tempo em que mantinha aquela última esperança encontrar a
sua mãe e sua irmã.
Ao
sair da Igreja ficaram assustados, restava apenas dor, os que ainda agonizavam
em baixos dos escombros traziam rosto dor e espanto. Um ar de “o que aconteceu?
Por que comigo?”. Apresentavam a mais alta imagem da fragilidade humana. Dava
para imaginar as pessoas correndo, não havia alto, nem baixo, em cima, dentro,
fora; não dava para esconder. Somente a roupa do corpo, não havia a quem
recorrer. Várias lembranças formavam-se nas mentes. Vidas que passaram em segundos. Frei Lourenço
com o seu hábito cinza, quase negro de tanta sujeira, entrava em todos os
buracos perguntando se ali havia alguém.
Ele
gritava com voz forte, mas não recebia nenhuma resposta.
—
Alguém ai? Estão me ouvindo?
Sem
resposta seguiram até que encontrar algumas pessoas que morreram carbonizadas.
Pareciam rezar. Liam o evangelho da Ovelha perdida[2], onde o pastor deixava as noventa
e nove e sai atrás da única perdida. O frade tinha o coração e a alma em prantos. Não havia o
que fazer ou dizer, apenas segurava com força o crucifixo preso a sua coroa
mariana e recomendava aquelas pobres almas a Deus
—
Estas são minhas ovelhas! Enquanto estavam aqui morrendo de frio e fome lá
estava eu, dentro da Igreja cuidando das noventa e nove.
—
Frei! Não adianta. Diz Peter, mas este não escutava inconformado.
De
repente Peter olhou a sua volta e viu duas mulheres que morrem abraçadas, em num
instante pensou serem sua mãe sua irmã talvez. Assim elas partiram para o céu,
bem unidas. Pediu que Frei Lourenço rezasse por elas de modo especial. E assim
foi feito. Olhou para Peter e disse:
— Meu
Filho você é a minha ovelha perdida[3]. As
noventa e noves foram salvas, porque primeiramente eu cuidei da minha ovelha. E
se assim Deus nosso vai permitir, cuidarei da ovelha que ele me concede em sua
bondade infinita.
As
lágrimas desceram-lhes o rosto. Peter sabia que seu pai, que se encontrava no
céu, não só havia cuidado de sua mãe, mas, havia descido de algum modo para
cuidar dele. Os dois ficaram ali por um bom tempo abraçados. Depois continuaram
o caminho a cuidar e a realizar os serviços com as demais ovelhas que se
encontravam agora em verdes pastagens repousantes.
Ao
voltar para Igreja, eis que todos se apresentam e começam a falar sobre o que
aconteceu. Não só referente ao cataclismo do dia anterior, mas tudo que havia
ocorrido nos últimos dias. Estavam reunidos ali um jovem casal escandinavo, de
nome Tobias e Fortuna; recém casados que resolveram fazer uma viagem com
intuito de descansar. O jovem esposo, médico oftálmico que esteve envolvido por
um longo tempo praticamente isolado em um projeto, preparava-se para inscrever-se
em um grupo de pesquisas da USP[4], e
com sucesso e alegria de ter o seu projeto aprovado resolveu realizar esta viagem,
ao mesmo tempo em que a viagem era uma oportunidade de resolver algumas coisas
ainda pendentes. O casamento aconteceu em meio a uma serie de polêmicas que envolvia
problema de interesses e conflitos de personalidades. O casal que passava por
uma nova fase a cada dia recuperava a confiança o amor e o respeito onde ambos
eram fortalecidos de modo mais profundo e visível.
Estavam
também na Igreja três jovens estudantes universitários. Jorge, Alex e Valter. Jorge estudava astronomia. Foi atraído até ali
pelo Centro tecnológico da NASA. De lá, seguiria para Moray[5]. O
outro era Alex, estudante de relações internacionais. Havia iniciado uma
pesquisa sobre o MERCOSUL[6] e, finalmente.
Valter estudante de artes plásticas, um pintor e escultor de mão cheia. Havia
sido atraído até ali pelo acervo artístico da Cidade de Arequipa, que em sua
vida cotidiana revelava em sua rica arquitetura as nobres atrações dos
espanhóis, franceses e belgas. As igrejas e mosteiros espalhados pela cidade
guardam grandes obras em pedras, metais e histórias de vida, a qual todo
artista deseja conhecer[7].
Os
três eram conhecidos desde a infância, passada em Brasília, tinham em si o
desejo de conhecer, e o gosto pela aventura. Estavam sempre dispostos a colaborar
com projetos sociais. Fizeram de tudo: palhaços em hospitais, contadores de
histórias em orfanatos e distribuição de panfletos contra o aborto pelo grupo
Pró-vida[8].
Eram leitores atentos e nostálgicos sobre “O movimento dos caras pintadas”. Leram
atentamente estudos críticos feitos no Brasil e no exterior sobre o fato da
eleição de um presidente operário e oito anos depois a novidade da mulher
eleita presidente[9]. Eram
atentos acompanhadores de mudanças fundamentais no mundo; dentre estas, a luta
constate contra a corrupção em geral, os grandes sucessos alcançados com as
campanhas contra analfabetismo, o terror do câncer e a infinda luta contra a
poluição.
Havia
também, naquele local de orações e vigílias, dois homens com sotaques
engraçados. Pareciam representantes de diversos lugares do mundo. Eram
mineradores especialistas em projetos de perfuração – Gaspar e Benedito. Gaspar
o mais velho, possuía barba grisalha e cabelo loiro escuro; já Benedito, pele
bronzeada e olhar penetrante. Seus olhos eram de uma cor diferente entre um
azul e cinza, apesar do cabelo enegrecido. Os dois falavam constantemente sobre
a explosão, pareciam saber mais que os demais, o que havia acontecido. Não se
sabia concretamente por que estavam ali. Frei Lourenço logo se aproximou dos
dois, pois deveriam saber de algo que inusitado. Intuitivamente buscaram falar
com as pessoas nativas que encontravam na Igreja. Frei Lourenço logo percebeu que
estes extraiam da sabedoria e cultura Inca algo que poderia explicar o que havia
acontecido em suas terras.
A
chave do mistério poderia estar entre os homens mais simples. Por isso,
conversavam com um tropeiro. Falava sobre o comportamento de alguns animais que
nos últimos dias não se aquietavam. Nas noites anteriores os animais comiam
muito assustados, pareciam perceber alguma coisa uma vaca resistiu a não entrar
no celeiro e dormiu ali fora.
—
“pobrezinha morreu soterrada nos escombros de terra” afirmava um vaqueiro da
região.
Gaspar
conversou também com um pescador que disse que há tempos os peixes maiores nãos
subiam o rio mantendo-se mais ao fundo. A água parecia estar mais quente. Cada
um dos camponeses tinha algo a relatar. Frente à experiência e sabedoria
popular aqueles homens silenciaram.
Agenor,
um senhor que trabalhava em um banco da cidade, disse que eram normais as portas
de vidros embaçarem por causa do ar condicionado, mas notara que há dias isso
não ocorria.
— A
Terra avisou e não escutamos, disse Gaspar a frei Lourenço que se aproximava
questionando:
— O que ocorreu?
[1] Alusão a São José, pai do Menino Jesus, que mesmo discreto teve
grande importância em sua vida (Mt 1,19-22.2,13).
[2] Mt
18,12
[3] Lc 15,6
[4] A Universidade de São Paulo é a maior instituição de ensino
superior e de pesquisa do País. É a terceira da América Latina.
[5] Moray foi confundido com
um modo de plantio de cereais, uma espécie de canteiro em círculos da Cultura
Inca. Porém, foi confirmado por especialistas da NASA que era um centro de
observação astronômico. Verificou-se que por meio desses círculos eles
estudavam todas as fases da lua, e os “círculos” tem o formato de um útero.
http://bttgeraes.wordpress.com/2010/01/16/47peru-moray-e-maras13-08-09/
[6] O Mercosul, como é conhecido o Mercado Comum do Sul é a união
aduaneira (livre comércio intrazona e política comercial comum) de cinco países
da América do Sul. Em sua formação original o bloco era composto por quatro
países: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Desde 2006, a Venezuela depende
de aprovação dos congressos nacionais para que sua entrada seja aprovada, mais
especificamente do parlamento paraguaio, visto que os outros três já a ratificaram.
No dia 17 de dezembro de 2007, o Israel assinou o primeiro acordo de livre
comércio (ALC) com o bloco. No dia 2 de agosto de 2010, foi a vez de o Egito
assinar também um ALC
[7] http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/peru/peru-4. php
[8] O Pró-Vida de Anápolis é uma associação beneficente, com sede em
Anápolis (GO). Sua finalidade é promover a dignidade e a inviolabilidade da
vida humana e da família e defender tais valores contra os atentados de
particulares ou dos poderes públicos. http://www.providaanapolis.org.br/
[9] Fernando Collor foi eleito (1990) e sofreu processo de
impeachment (02/10/1992); Luis Inácio da Silva (Lula) torneiro mecânico eleito
(2003) por coto popular. Primeira mulher na presidência do Brasil Dilma
Rousseff (2011).

